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Mundo Segundo: «’Segundo o Ancião’ conta a minha história pessoal»

Com vinte anos de carreira, entre os Dealema, e os projectos a solo, Mundo Segundo sente-se já um «ancião» no hip-hop Tuga, e é por isso que o seu segundo álbum a solo se chama, precisamente «Mundo o ancião». O trabalho conta a sua história de oito anos através das músicas, e o rapper explica-nos porque é os álbuns devem demorar tempo a serem criados.
Mundo Segundo apresentou «Mundo o Ancião» em Lisboa, a 4 de Julho, com um concerto no Musicbox, que contou com NBC, Sam The Kid, ou Dino Santiago entre os convidados
Acabas de lançar um novo trabalho a solo, o «Segundo o Ancião». É assim que te sentes aos vinte anos de carreira, um ancião?
Sim, às vezes ao lado de alguns adolescentes que têm metade da minha idade, sinto-me já o pai de alguns deles. É basicamente isso, um ancião do hip-hop.
Tens visto muitas diferenças no hip-hop nacional, desde que começaste? É difícil começar agora uma carreira longa?
É mais fácil em alguns pontos, e é mais difícil. Há muita oferta, e para te evidenciares tens que te aplicar mesmo muito, porque não é fácil no mundo de hoje em dia, com Internet, e com 1001 projectos a aparecer.
Muitos destes vinte anos de carreira foram dedicados aos Dealema, como é que decidiste, há menos de dez anos, lançar o primeiro álbum a solo?
Eu já tinha, desde 1998/2000, o meu cantinho em casa, o segundo piso onde gravamos coisa de Dealema. Entretanto, fui gravando para Dealema e para outros artistas, e em 2006 senti essa necessidade de experimentar o meu primeiro disco a solo, também para saciar a minha fome de fazer mais música, e explorar outras coisas distantes de Dealema, talvez mais instrospectivas, mais pessoais.
«Nestes últimos oito anos muita coisa mudou na minha vida, e as músicas são como um episódio de cada fase»
Lanças teste álbum muito próximo do mais recente dos Dealema, o «Alvorada da Alma», para quem não ouviu um deles, ou nenhum dos dois, quais são as grandes diferenças?
O «Segundo o Ancião» conta mais a minha história pessoal, seja ela musical, seja mais íntima, familiar, as minhas experiências boas e más. É um bocado o retrato da evolução de uma pessoa nos últimos oito anos. Nestes últimos oito anos muita coisa mudou na minha vida, e as músicas são como um episódio de cada fase. Comecei a gravar estas músicas logo mal gravei o primeiro disco. Comecei logo em 2007 a gravar instrumentais, e o próprio single com o NBC é uma letra que eu já fiz em 2007, e fui guardando estas partituras especiais, que eu considero intemporais, e lancei tudo neste disto.
Vês este disco como uma forma de fechar um ciclo na tua vida?
Sim, definitivamente. É algo que eu queria fazer e dizer: «ok, esta parte está feita, agora vou explorar outros mundos». Era uma fase que eu queria fechar na minha vida, já venho há alguns anos a coleccionar estas músicas, que estavam basicamente todas feitas antes do «Alvorada da Alma», só as pus assim de parte para podermos lançar Dealema, e agora é andar em frente e procurar coisas novas.
Trabalhas muito com colaborações, a solo e com os Dealema, não tens problema em separar todos os mundos?
Não, não. Há coisa de sete anos, mais ou menos, decidi dedicar-me inteiramente à música. Antes tinha um trabalho das oito às cinco, o chamado trabalho normal – que de normal tem pouco – e quando me decidi dedicar a isto, pensei: «não vou fazer como se calhar muitos músicos fazem, fazer música quando me apetece», não. Tento ter uma disciplina que me leva a tentar fazer alguma coisa todos os dias, produzir algo, ou fomentar uma ideia, fazer uma pesquisa. Tudo isso me ajuda, vou fazendo aos bocadinhos, e quando dou por ela já está tudo feito. Ou seja, tenho sempre tempo para tudo, nunca tenho pressa para fazer nada, e isso também me agrada. Este disco é um bocado isso, demorou oito anos, mas ok, está feito, é agora que vai sair.
«Tudo o que a música me der, eu abraço»
Então vês a música como o «trabalho normal», em que tens as tuas rotinas?
Sim! Claro que é preciso ter uma certa disciplina, e às vezes as pessoas perdem-na um bocado, neste mundo musical. Num dia é tudo muito bonito, depois às vezes se conseguires subir um bocadinho achas que já está tudo bem e não está muito bem, porque a certa altura vais descer outra vez, e tens de estar preparado para estes altos e baixos que a música proporciona. Eu já senti muito essas subidas e descidas, um dia estás em alta, noutro dia já está outro. Eu sinto, nesta altura, já estar emocionalmente preparado para isso, e tudo o que a música me der, eu abraço. Acho que isso faz parte da vida, isto é como tudo, uma pessoa pode estar a trabalhar numa empresa, e ao fim de dez anos é despedido. Tem que se estar preparado para uma nova etapa, e eu pretendo trabalhar isso na música.
Então trabalhas a tua inspiração, ou apesar dessa disciplina tens de estar na altura certa para criar?
Eu fabrico muita coisa, mas só algumas é que eu retenho. Uma coisa que eu tento fazer, e que aprendi desde que comecei a fazer música, é a absorver informação de forma massiva, seja leitura, imagem, cheiros, conversas, uma panóplia de coisas que gosto de colecionar para depois colocar na música. É quase como se fotografasse tudo o que me rodeia, e a certa altura hei de ir ao arquivo, aquilo vai-me fazer falta, e eu vou conseguir usá-lo de forma criativa.
Como estavas a dizer, este álbum é muito pessoal, mas conta com várias colaborações, como NBC, Dino Santiago, Sam The Kid…
São amigos já de longa-data. Eu quando faço uma música, nomeadamente com o NBC, eu não pensei: «olha, vou fazer uma música com o NBC», eu oiço o que a música me diz, e se calhar a música diz-me que falta a voz de alguém. Aí é que surgem os convidados, nunca penso que vou fazer uma música com alguém, deixo que ela fale para mim e eu possa escutá-la e perceber o que falta. Depois surgem essas peças, quer a nível de participação vocal, quer a nível de produção, que eu também gosto muito de ouvir a produção instrumental de outros artistas. Tento absorver isso e de certa forma trazer para o meu mundo, dar-lhe o meu toque.
Disseste que os teus convidados são amigos de longa-data. Faz mais sentido trabalhares com amigos na tua música, ou pode ser com pessoas que admires, mesmo que não tenhas uma relação próxima com elas?
Pode ser as duas coisas. Há pessoas que consigo conciliar, com quem tenho uma amizade e cujo trabalho admiro, mas depois há pessoas que até conhecia há relativamente pouco tempo, mas que aprecio bastante, e se calhar não temos uma relação de dez ou quinze anos, mas são pessoas que eu sinto e gosto de as trazer também para o meu mundo.
Falando nessas colaborações, estás a trabalhar com o Sam The Kid num novo álbum, o que é que nos podes dizer sobre isso?
Posso dizer que temos mais de meio disco gravado, e que vai ser um álbum de hip-hop clássico. Não te posso revelar mais (risos).
Já há previsões para o lançamento?
Fim deste ano, início do próximo. Nós gostávamos muito que saísse ainda este ano, estamos a trabalhar nesse sentido, mas também (tem sido difícil) derivado à distância. Temo dado alguns concertos, e vamos entre esses concerto fabricando coisas, fazendo algum brainstorming em quartos de hotel. Pronto, a coisa está a crescer, já vamos a meio do disco e isso também é importante, porque a ideia começou há alguns anos atrás, e finalmente está a ganhar forma.
Mais uma vez, não estás a apressar o processo, como tinhas falado….
Claro. É muito importante quando fazes uma obra, seja ela musical ou de outro campo qualquer, desfrutares dela, porque é isso que fica. Tu podes gravar um disco hoje, e amanhã lançá-lo, mas esse processo que fica no meio…É como aquela célebre frase que diz «A felicidade não é a meta, é o caminho». É um bocado isso que eu tento fazer num disco. O que me fica é aqueles três anos ou quatro que demorámos a gravar, as condições em que o fizemos, a fase da vida em que estávamos. Para as pessoas fica o disco, para nós fica essa recordação.
Fonte: Myway
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