Início / Destaques / Underground Lusófono Entrevista: Mona Dya Kidi

Underground Lusófono Entrevista: Mona Dya Kidi

Boas pessoal!
Trago-vos mais uma entrevista inédita, desta vez com o mestre-de-cerimónias e empreendedor social angolano Mona Dya Kidi.

Quem é o Mona Dya Kidi?

Um Rapper angolano que como cidadão impõe-se para ajudar a fazer de Angola um País melhor para todos.
Resumiu o seu propósito de vida nas três seguintes frases: Despartidarização de consciências; exercício de cidadania e trabalho voluntário; aprendizado, afirmação e divulgação da cultura e línguas bantu de Angola.

O porquê do nome artístico Mona Dya Kidi?

Mona dya Kidi significa “filho da verdade” na língua bantu kimbundu pertencente ao grupo étnico Ambundu. Desde pequeno que busco ser honesto comigo e com os outros, dai a escolha de um nome que espelhasse a minha personalidade, carácter e identidade africana.

Como e quando começa a tua trajectoria no panorama Rap Underground Angolano?

Tive boas influências! Vou tentar resumir! Rsrsr.

Consumia e continuo a consumir todo tipo de música. O Rap surgiu de forma acidental! Fui inicialmente influenciado pelos SSP (grupo de rap angolano), imitava as suas letras e bem mais tarde comecei a compor as minhas próprias letras e a fazer freestyle na minha banda (Rangel), na escola Jinguba e no IMEL.

Eis os principais grupos e artistas culpados pela minha adesão ao RAP: SSP, Nelboy Dastha Burtha, Semini ni moyo, Hemoglobinas, Mc-k (Angola), Gabriel Pensador, MV Bill, Nega Giza, SNJ, Racionais (Brasil); Nach Scratch (Espanha).

Em 2002 fiz parte de um grupo de rap que para mim foi uma escola, formado por amigos e colegas de escola (Floedno Kru), depois conheci integrantes do grupo de rap Filhos da Ala Este (angolanos) e passei a admira-los, uns pela militância e outros pela determinação e carácter.

Actualmente canto a solo e sou membro do Núcleo CCC (Conexão Cultural Comunitária) juntamente com outros Rappers como o Bráulio David Rimas, Carbono Casimiro, Hidrogénio, Honório, Jang Nómada, Methamorfoze e Shorty Bang.

De onde vem a tua inspiração?

Fui inspirado anteriormente pelos artistas e grupos de rap acima citados. Hoje sou inspirado por quase tudo: A vida, os meus propósitos, Angola no seu todo, as boas e más músicas, as boas e más acções, os pequenos e grandes gestos, etc.

Em suas letras eu vejo uma defesa clara do espírito original do HipHop e da mensagem. É difícil fazer Rap de intervenção em Angola?
Fazer rap está cada vez mais fácil (a realidade angolana por si só inspira qualquer artista a espelhar intervenção social na sua arte), gravar é um pouco mais difícil por causa do custo de vida e divulgar as vezes é muito complicado por causa do nosso sistema político autoritário e repressivo!

O conteúdo da música é um factor que condiciona a sua divulgação nos canais televisivos, alguns radiofónicos, jornais e revistas.

Existem poucos espaços culturais e boa parte das iniciativas dos concertos de bairros são bloqueadas pelas administrações locais, provinciais e pela polícia nacional.

A alternativa para divulgação dos trabalhos independentes e com livre manifesto da liberdade artística tem sido as redes sociais com principal mérito aos Bloggers.

Estás a trabalhar no seu novo álbum de originais intitulado “NGALA UBHEKA”. Fale-nos um pouco desse novo álbum. O que significa “NGALA UBHEKA”? Quando é que começaste a trabalhar nesse álbum?

Lancei o meu primeiro trabalho em 2011 (Kamun´dongo) e pretendia lançar o segundo em 2013 (Mais Pessoal – Um degrau por baixo do underground). Neste segundo pretendia trazer mais participações e demostrar um rap boom bap, mas por razões sociopolíticas, económicas e familiares vi minha pretensão comprometida.

Tive um casamento complicado; senti-me abandonado pelos meus produtores; desperdicei um financiamento bancário num investimento de burla; depois comprei um Hiase Jinbei que me serviu por pouco tempo como suporte financeiro secundário porque as chuvas, as más condições das estradas e ruas de Luanda, e os constantes aumentos do preço do combustível obrigaram-me a desfazer-se do mesmo. E lá estava eu a viver as consequências da crise que afectou todos os Angolanos.

As coisas não ficaram por ai! Meu carro fatigou e o custo de reparação era muito alto (me desfiz do gajo); E novamente por causa da crise, quase perdi a minha casa. Senti-me afastado de muita coisa e de igual modo também decidi afastar-me. Estava determinado em sair de Luanda e migrar para Cidade do Huambo, abandonar tudo e começar do zero e nesse instante os ventos passaram a soprar a meu favor. Por estes motivos a pretensão do “MAIS PESSOAL” evoluiu para “NGALA UBHEKA” que na língua Kimbundu significa “estou só” ou “estou sozinho”. Este álbum revela o meu estado de espírito e visão sobre Angola no período 2011-2017.

Diante de uma Angola em que tudo gira em torno deles (do sistema), em que a desigualdade social reina a 100%, em que a população é vista apenas como números, em que o sistema escolar, hospitalar, etc, continuam péssimos. Que mensagem trazes para os angolanos nesse novo álbum?

Faço músicas de informação, reflexão e terapia. Naturalmente alguns poderão rever-se nelas e deixarem-se positivamente influenciar, outros não.

Ficaria muito feliz se os meus irmãos angolanos assimilarem a minha proposta dos 7 legados de valores: Coerência, lealdade, trabalho, compromisso, educação, partilha e identidade cultural.

Esses valores são muito poderosos e capazes de mudar Angola para melhor. O segredo é que eles não se ensinam, transmitem-se vivendo-os!

Que evolução podemos esperar entre o Mona Dya Kidi do álbum “KAMUN’DONGO” (2011) e o Mona Dya Kidi do álbum “NGALA UBHEKA”?

Sou uma pessoa convicta e focada nos meus propósitos. Provavelmente existe evolução na instrumentalização, composição e interpretação dos temas.

Quando é que o álbum sai nas ruas?
Só avançarei data quando tiver os CD´s em mão. Espero que os serviços alfandegários não retenham a cena, mas se o fizerem não se preocupem porque as minhas obras são de reprodução autorizada e deverão estar disponíveis da InterNet para compra voluntária e baixa gratuita.

Tens quantos projectos nas ruas?

O álbum “Kamun´dongo” e uma compilação denominada “Extra_a_cção Vol. I” aonde reúno algumas músicas que fazem parte de projectos que participei.

Perante essa alternância do poder, acreditas numa nova Angola, numa boa evolução desse país dos pés descalços?

Não considero alternância do poder! O Zédu deixará a presidência, mas o MPLA ganhará as eleições (talvez não mais com maioria absoluta).

A UNITA é por agora o único partido com chances de garantir alternância do poder, mas infelizmente começou a dar passos práticos muito tarde. Precisará de mais tempo e deverá melhorar o dinamismo e envolver-se mais com o povo.

Na verdade quem garante a alternância de poder é o POVO e o nosso ainda não está unido. Somos um povo reclamante e pouco prático, todos desejamos mudanças, sabemos o que deve mudar, mas essa mudança requer determinação, disciplina e sacrifício (isso não deveria constituir problemas).

Eu acredito na criatividade do povo angolano. A maior certeza que tenho é de que o nosso povo precisa de melhor orientação porque potencial não falta.

Eu sugiro que nos inspiremos na Noruega (considerado o País mais democrático do mundo) e na Suécia (considerado o País quase perfeito). Sugiro também o amor-próprio, ao próximo e a nação.

Como vês o Rap independente em Angola? Achas que está no bom nível?

Temos de tudo um pouco: do mais básico ao mais criativo; do mais fútil ao mais conservador. Cada um deve preocupar-se em fazer melhor a sua parte e contribuir para a evolução do rap feito em Angola.

Para mim o rap é apenas uma das vias de expressão do Movimento Hip Hop. Eu sugiro que olhemos o Hip Hop no seu todo, como um movimento cultural, rico e diversificado, aonde cada integrante deve afirma-se, da pintura à dança, da música ao activismo, etc. etc.

Ouça os Singles de avanço do álbum NGALA UBHEKA.

Já vais tarde Ft. Shorty Bang | Viagem ao passado Ft. M.Fashion | Poesia Angolar

Comentários

Sobre Underground Lusófono

O maior site de Rap Underground feito na Lusofonia aka CPLP! Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal,Timor-Leste, São Tome e Principe.

Além disso, verifique

Vídeo: Fat Soldiers – Amarga Esperança Feat. Raf Tag & Tânia Letal

Amarga Esperança é o tema da nova música do grupo angolano Fat Soldiers, que conta …

%d bloggers like this: