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HipHop Sou Eu Entrevista: Capicua

”Capicua falou com a HipHopSouEu e deu a conhecer um pouco das suas pegadas no movimento. De forma consistente, nos tem presenteado com os seu trabalhos, que têm cativado de forma gradual o público. Mc do Porto, mas tem soado bem nos ouvidos de norte a sul do país.”

1- Desde o EP mau feitio, o que mudou de lá para cá? O que mudou desde o inicio até aqui?
Ganhei experiência, amadureci, melhorei tecnicamente, tornei-me mais versátil enquanto MC, comecei a fazer música sozinha, consegui chegar a outras zonas do país e fui ganhando mais público, aprendi muito, diverti-me bastante e tenho trabalhado cada vez mais! Em cada novo projeto sinto que a dedicação é mais forte, a responsabilidade é maior e cada vez tenho menos tempo para outras coisas! Neste momento, trabalho quase só na música.

2 Apesar de dizerem que o HH é um meio muito competitivo, liderado maioritariamente por homens, eu sempre senti que foste acarinhada exatamente por não haver muitas representantes femininas no nosso pais. O que significou para ti ser elogiada por alguns dos melhores nomes do HipHop?
Ser mulher no Rap é uma faca de dois gumes, porque por um lado até ganharmos algum reconhecimento e credibilidade temos de trabalhar o dobro, mas a partir desse momento temos mais visibilidade! Eu não tenho razão de queixa. Sempre me senti acarinhada e sempre me trataram de igual para igual, porque foi nessa posição em que me coloquei a mim própria. Mas não deixa de ser um meio competitivo e, muitas vezes, os nossos colegas homens, não nos incluem na mesma liga, nem se comparam connosco, quase como se estivéssemos num jogo à parte, para sua própria “proteção” diria eu! (risos) É uma espécie de defesa… (risos).
Quanto aos elogios, é sempre muito bom ver o nosso trabalho reconhecido, sobretudo por quem partilha da mesma paixão e por quem entende mais do assunto! Como disse, não tenho mesmo razão de queixa e tenho que agradecer a todos os Mc’s e Dj’s que me têm convidado para participar nos seus projetos.
 
3. O fato de teres estudado sociologia, de que forma influencia as tuas letras, a tua música, a forma como vês as pessoas?
Fazem-me muitas vezes essa pergunta e eu respondo sempre da mesma forma: a nossa formação influencia sempre a nossa forma de ver o mundo e, portanto, tudo o que fazemos, mas acho que no Rap, tudo serve de influência e inspiração e, de facto, não sinto que haja uma ligação direta entre o meu estilo de escrita e aquilo que eu estudei! Sinto que a mistura de tudo o que vivi e de todos os estímulos a que sou exposta diariamente, vão inspirando a reflexão e a escrita, quotidianamente.

4. O álbum Capicua foi considerado um dos melhores álbuns do ano, fizeste vários concertos, entrevistas. Esperavas esta reação tão positiva?
Normalmente, durante o processo de construção de um álbum ou mixtape, não costumo pensar na reação das pessoas, nem se vai bater ou não. Só nos dias antes do lançamento, com o disco pronto, é que começo a criar uma expectativa e, portanto, qualquer que seja a recepção, nunca estou propriamente à espera de nada muito definido. Claro que, sendo o meu primeiro álbum e sendo a primeira vez que tenho uma edição física à venda nas lojas, foi muito bom ter tido o reconhecimento da crítica e o carinho do público. Mas sobretudo, foi uma vitória ter chegado a um público muito variado, em grande parte fora do meio Hip Hop, e também a pessoas mais velhas. Acho que todo este interesse pelo meu disco acabou por mostrar aos media e às pessoas mais desconhecedoras, que o Hip Hop e os Mc’s em particular, estão longe de corresponder aos estereótipos redutores e preconceituosos que ainda pairam por aí! E só por isso, já foi uma vitória! Além disso, competir nas listas de melhores do ano, taco a taco, com discos com orçamentos enormes, de grandes editoras e de estilos musicais mais prestigiados (como o fado, por exemplo), foi a cereja no topo do bolo!
 
5. Neste teu ultimo projeto usaste beats de Kanye West, soou-me mais experimental esta mixtape. Estás uma nova fase na tua carreira? Sentes de vontade de arriscar mais na tua carreira? Mesmo que isso seja um risco.
Cada mixtape funciona para mim como um exercício! É como um desafio que imponho a mim própria em cada fase da minha evolução como Mc. Neste caso, o objectivo era testar a minha versatilidade enquanto rapper, aproveitando a versatilidade do Kanye West como produtor. Queria rimar em beats muito diferentes, com registos, ambientes e estéticas muito diferentes e imprimir em todos eles o meu cunho pessoal, a minha marca, a minha identidade lírica. Nesse sentido, acho que chegar ao fim e ter uma mixtape coesa, pessoal e intransmissível, que consolida o meu estilo próprio e acrescenta pequenas novidades, acho que é uma missão cumprida. Mas experimentar, evoluir, arriscar, são verbos que tenho tentado conjugar sempre! Desta vez não foi exceção e esforcei-me para isso!
 
6. Deau, Capicua, Virtus, Jimmy P e muitos mais estão a representar de forma muito forte a nova escola do Porto. Achas que esta força que o Porto tem no HipHop Tuga continuará firme por muitos anos?
Tenho muito orgulho na escola do Porto e nas vitórias dos meus companheiros de Rap! Acho que temos todos mostrado qualidade, nos discos e nos palcos, e honrando as nossas referências, a nossa cidade e o nosso público. Não vejo razão para que isso não continue a acontecer, até porque acho que estamos como o Vinho do Porto – cada vez melhor!
 
7. Um novo álbum com beat-box e scratch. O que nos estás a reservar?
Durante este ano fiz algumas versões das músicas do álbum em formato acústico, com o Mistah Isaac na viola e no beatbox e todo o processo de adaptação foi muito engraçado. É um método mais orgânico de fazer música e o resultado é mais despojado e intimista. Tocamos ao vivo algumas vezes e gravamos alguns vídeos e a reação das pessoas foi incrível. Até hoje recebo mensagens a pedir que grave as versões em disco (sobretudo da “Casa no Campo”)! E como fiquei com vontade de trabalhar mais este registo e neste método, resolvemos gravar um álbum (com versões de músicas do “Capicua” e das mixtapes juntamente com alguns inéditos), com viola, beatbox, scratch e algum sampling! É essa a aventura dos próximos meses!

8. O que se segue para a Capicua em 2013. Projetos  e metas a cumprir?
Fazer esse disco quase-acústico com o Mistah Isaac e o D-one, continuar a promover o álbum e a nova mixtape, dar muitos concertos, trabalhar muito e divertir-me ainda mais. E claro, aproveitar todas as oportunidades que forem surgindo para aprender cada vez mais e evoluir artisticamente.

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