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“Lisboa Cidade Negra”, Teatro do Bairro, Lisboa, 27/04/2013

“Lisboa Cidade Negra”, Teatro do Bairro, Lisboa, 27/04/2013

“Lisboa Cidade Negra”, Teatro do Bairro, Lisboa, 27/04/2013
“Lisboa Cidade Negra” junta Kussondulola e artistas do rap crioulo 30/04/2013, 15:36
Foi na companhia de cerca de 70 pessoas que os Kussondulola – banda de reggae angolana – aterraram dia 27 de Abril no Teatro do Bairro, em Lisboa, para “Lisboa Cidade Negra”, um concerto integrado na tour “África como Destino”, a decorrer ao longo deste ano. Como convidados trouxeram Landim, Loreta ou Babydog, artistas ligados ao rap crioulo da periferia lisboeta.
Na antevisão do espectáculo, Janelo da Costa, vocalista do grupo angolano, acreditava tratar-se de um evento especial, onde interagiam dois estilos musicais distintos mas intimamente ligados: o reggae e o hip-hop. Se, por um lado, os Kussondulola tinham como objectivo mostrar alguns dos temas de “Amajah” – o novo álbum -, o concerto propunha-se a apresentar vários artistas do hip-hop crioulo dos subúrbios de Lisboa. Um estilo em franca ascensão na cena rap portuguesa, cujo fervor musical se tem feito sentir em vários bairros, desde a Amadora até à Arrentela, passando por Sintra e Portela. Aos anfitriões juntaram-se por isso nomes como Landim, Loreta ou Babydog, rappers que têm surgido com uma ampla produção musical no âmbito deste género do rap.
A noite criava elevadas expectativas, mas o início do concerto ficou marcado por um incompreensível atraso de mais de duas horas. E o atraso prejudicou bastante. Condicionou o tempo de actuação de cada artista – cada um tinha cerca de meia hora – e desiludiu naturalmente alguns dos fãs que se deslocaram ao Teatro do Bairro. Mas isso não foi motivo suficiente para estragar o ambiente. No Teatro do Bairro respirava-se um espírito de festa e arte, de dedicação ao hip-hop e à comunidade. O imaginário hip-hop esteve bem presente, desde as roupas e caps até à atenção prestada a cada rapper que subia ao palco. “Lisboa Cidade Negra” teve o condão de expôr e divulgar a cultura de África “na cidade mais africana da Europa”. E o apoio dos africanos ficou bem patente, sobretudo para com os artistas do “Rap Street”.

O primeiro artista a subir ao palco foi Landim, embora no programa constasse que quem entraria primeiro seria o grupo Kova M, que acabou por não comparecer, não tendo sido dada qualquer justificação para tal. Landim subiu ao palco quando eram cerca de 1h45 da manhã, e finalmente, para agrado dos presentes o espectáculo começou. Acompanhado pelo grupo KS Drama, foram cerca de 35 minutos de hip-hop cantados em crioulo, abordando temas tão pertinentes como a falta de oportunidades, as dificuldades económicas e sociais, e a amizade pura que mantém com os seus. “Tristi falsidade”, “Fladu Fla” ou “Karma” foram algumas das músicas entoadas pelos KS Drama.
Com um grande flow, e acompanhado pelo público na maioria das músicas, o artista do Casal de São José – KSJ, Mem Martins – conseguiu um bom concerto, presenteando ainda o público com uma música cantada acapella, um dos pontos altos do concerto e que demonstrou bem as qualidades do cantor. No final, despediram-se com um “O nosso trabalho está feito”, algo que demonstra bem o esforço e o empenho em tornar possível uma ascensão ainda maior do rap crioulo. Fizeram bem o seu trabalho. Em conversa com o H2T, Landim mostrou-se satisfeito pela actuação. “Um concerto é sempre uma janela de oportunidade, embora faltem condições para os rappers”, afirmou. Ao mesmo tempo, o artista acredita que o rap crioulo está a avançar em Portugal. “O movimento está a crescer. Só pode crescer. Há cada vez mais gente a cantar e a exprimir-se em crioulo”.
Poucos minutos depois subiu ao palco Loreta, com o seu grupo, KBA, vindos de Mira Sintra, e estiveram em palco cerca de 25 minutos, algo escasso, mas ainda assim óptimo. Quando o DJ colocou uma faixa mais calma e menos “Rap street”, Loreta pediu-lhe imediatamente que passasse à frente, salientando que era uma noite inteiramente dedicada ao Rap, puro e duro, e que queria aproveitar o seu (pouco) tempo para cantar o que mais se identificasse com o “Rap street”. Os fãs gostaram, acompanharam, cantaram e ainda puderam ver um feat com Landim, que voltou ao palco para cantar uma faixa com o grupo. No fim, tanto Loreta, como Landim já havia feito no final do seu concerto, enviaram os seus props para os outros artistas da noite, os presentes e os demais nomes grandes do rap crioulo, o que demonstra bastante união entre quem o faz, algo que só pode ser bom para o género.
Kastro BlackHooligan subiu ao palco pouco depois trazendo consigo um rap crioulo diferente dos demais artistas. Para a maioria talvez o nome menos conhecido da noite, mostrou ser dono de um flow mais “dirty”, e a música “Avé Maria” foi o ponto alto da actuação, mostrando uma face algo distinta do próprio género. Esteve igualmente bem, dando o seu precioso contributo numa noite recheada de bons momentos de rap.
Antes da entrada em cena dos Kussondulola, tempo ainda para a actuação de Babydog e Vado, dois rappers oriundos do Ghetto Six (Bairro 6 de Maio, na Damaia). Com um trabalho reconhecido na zona da Amadora, a dupla aproveitou para entoar os temas que lhe têm trazido maior reconhecimento no panorama do “Rap Street”. Com uma postura descontraída e de constante interacção com o público, fizeram-se ouvir músicas como “Realidadi”, “Homi dja bu ka da” ou “Nos e tropa”. Uma mensagem intensa, transmitida mais uma vez em crioulo, capaz de expressar os sentimentos vividos pela juventude da periferia de Lisboa. As perspectivas são reduzidas, mas a comunidade é forte, e a ligação a Cabo Verde também. Uma actuação curta, mas muito bem conseguida.
Já passava das quatro da manhã quando Janelo da Costa e companhia subiram ao palco para impôr os ritmos do reggae style e nos transportar até terras jamaicanas. Os Kussondulola, harmonicamente alinhados em cena, partiram à conquista de um concerto despido de público. Porque, dada a hora tardia da actuação, apenas se concentravam umas 15 pessoas junto ao palco. O preço dos bilhetes (10 euros) foi também um obstáculo para muita gente. Ainda assim, o espectáculo decorreu com boa vibe e energias positivas, ou não fosse esse o mote dos Kussondulola.
“Dançam no Huambo”, “Perigosa” ou “Chá de Cannabis” fizeram os presentes mexer e libertar as vibrações incutidas pelo deus Jah. O grupo preferiu deixar o som falar por si, numa comunhão entre a mensagem social e o amor à natureza. A pequena actuação de meia hora soube a pouco, encurtada pela necessidade de terminar o concerto à hora marcada. Mas a partilha entre reggae e hip-hop, produzida durante esta noite, augura e exige novos eventos do género. Eventos dinamizadores da cultura africana e do rap crioulo, que traz uma esperança reforçada a este estilo musical em Portugal. One love.
Texto:
Daniel Veloso
Fotografia:
André Cruz
Fonte Oficial » H2T

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