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Luso: ‘Através da musica eu pinto quadros reais daquilo que eu vivo’

Boas Pessoal!
Trago-vos mais uma entrevista inédita, desta vez com o rapper angolano Luso aka Irmão do Vito, que recentemente lançou a mixtape “255 Quadro.82” pela Cave Play.


Antes de tudo, quem é o mano por detrás do personagem LUSO?
O mano por detrás da personagem Luso chama-se Luís Carlos Mutaburi Eduardo, nasceu em Angola em 1988 e emigrou para Portugal em 1999/2000

O porquê do nome artístico LUSO?
O nome Luso foi-me dado por causa da forma cuidada que eu utilizo a língua Portuguesa para compor as minhas letras, as pessoas diziam que representava e retratava muito bem a comunidade Lusófona através do Rap que fazia, ou seja o meu Rap era um resumo daquilo que muitos queriam dizer mas por vezes não encontravam a palavra e o enquadramento certo.

Como e quando começa a tua trajectora no panorama HipHop – RAP Underground?
O meu contacto com o Rap começa ainda em Angola, eu sai de Angola com mais ou menos 9 anos e lembro-me de cá ja ouvir os Rappers que os meus irmão mais velhos ouviam na altura, mas cantar começo em 2004\2005, tive a sorte de ao chegar a Portugal ir viver na margem sul de Lisboa mais propriamente no Miratejo bairro que para muitos é o berço do Hip Hop Tuga, conheci os manos do “Mira Squad” que vivem o Hip Hop na primeira pessoa desde o Rap ao Grafite até que em 2005\2006 junto-me o Nucho e ao Glad Max e formamos a 3Pla Aliança, o meu Rap sempre foi focado no passar uma mensagem, feliz ou infelizmente não consigo escrever uma letra por escrever dai algumas pessoas olharem para mim como underground mas também tem outras que não o fazem por eu trazer a mesma mensagem num beat TRAP, para ser sincero eu prefiro me afirmar como Rapper (no verdadeiro sentido da palavra) e deixar os rótulos serem atribuídos por quem me ouve.

O que é que te incentivou a fazer Rap?
Antes de o que é, deixa-me dizer quem me incentivou de forma indirecta a fazer Rap através da atitude que tinha na defesa dos seus ideais e aqui se calhar respondo também a pergunta a seguir, em 2001 eu tive contacto com o álbum “Rapresalias” que era uma luta em forma de musica contra segregação e opressão que o povo africano sofria em Portugal, para terem um ideia quando puto eu dizia que iria ser advogado de defesa porque tinha muitos amigos que eu achava que cedo ou tarde iriam estar no banco de réu, o álbum Rapresalias tinha uma mensagem forte sobre a vida de um emigrante e de muitos que não eram emigrantes mas eram vistos da mesma forma mesmo tendo nascido em Portugal, quando eu vi o autor do álbum bater de porta em porta a casa de pessoas supostamente ilegais com os documentos e formulários que eles precisavam para ter a bem dita nacionalidade, vi ele mesmo ir ao SEF e arranjar formas de legalizar o povo que ele defendia eu percebi que estava diante do maior incentivo que eu podia ter para fazer RAP e ser RAPPER. o meu maior espelho é o Chullage.

Qual é a tua visão artística?
Através da musica eu pinto quadros reais daquilo que eu vivo, e com os quadros que pinto eu tento mostrar as pessoas uma outra maneira de olhar e abordar os problemas sociais que diariamente enfrentamos, nem todos os quadros são desenhos perfeitos sobre a minha pessoa, alguns retratam vivencias de outros mas que ao trazer ao de cima podem servir de incentivo ou de certa forma moldar pensamentos. No fundo eu espero que a minha ate leve aos outros aquilo que me traz enquanto a faço.

Recentemente lançaste uma mixtape com nome “255 Quadro.82” pela Cave Play. Para além de ser um tributo ao teu irmão, que mensagem procuraste trazer para os Angolanos nesta mixtape?
A melhor forma de mostrar-vos a mensagem principal que tentei passar com a mixtape é convidar-vos a ouvir a faixa “Agora é tarde”, ou seja não esperem que a pessoa parta para o perdoar, amar ou dizer o quanto te vos fará falta, adjacente a esta mensagem tentei dizer que Angola só será o pais das maravilhas quando todos nós vestirmos a pele da “Alice” e não ficarmos a espera que outros o criem por nós, seja qual for o meu estatuto social eu tenho que dar o meu exemplo.

Quais foram as dificuldades que tiveste ao longo da gravação desta mixtape?
Eu dei um tempo ao rap porque estava mesmo sem tempo e disponibilidade financeira para o fazer, em Angola ter qualidade é caro mas quando o meu irmão morre em Outubro de 2018 eu senti que tinha que fazer o dobro, eu escrevi e gravei a mixtape quase toda em um estúdio caseiro se calhar a dificuldade que tive foi mesmo só ter a qualidade aceitável.

Como tem sido o feedback do público em relação a mixtape?
Bastante positivo, todos os dias tenho uma mensagem incentivadora no watsap, no face ou no insta LOL, posso dizer que a aceitação foi melhor do que eu estava a espera.

Como e quando surgiu o convite do Kid Mc para pertenceres a gravadora/produtora Cave Play?
O Kid tem uma pagina fantasma no Facebook, alguém que é seguidor desta pagina e por acaso também segue a minha pagina partilhou o meu vídeo “Prenda para vocês” e caiu no perfil fantasma do Kid, ele ao ver o vídeo gostou e mandou-me mensagem no chat a partir da pagina dele sem o nome nem nada que o ligasse a ele, pediu-me o numero de telefone e eu a pensar que fosse apenas alguém que queria as musicas no watsap ou assim, quando ele liga e se identifica a principio não acreditei, mas depois vi que era mesmo ele e que tinha uma porta a abrir-se para o sonho se tornar real.

Já pertenceste à alguma produtora antes?
Antes da cave eu os meus irmãos MUTA e Don MUTA tínhamos uma label pequena chamada Dinastya, fora isso nunca fiz parte de nenhuma grande produtora.

O que podemos esperar do Luso em 2019?
Não sei se ainda é prematuro, mas isso depois o tempo e os seguidores dirão se foi ou não acertado mas de mim podem esperar o meu álbum que ja começou a ser gravado.

Como tu vês o Rap independente feito em Angola?
conheço muita gente que faz Rap de forma independente e que em alguns casos melhor que algumas individualidades detentoras do mercado nacional, mas infelizmente existe ainda muitos entraves e a entrada do independente é bloqueada pelas grandes editoras! O importante é que de uma forma ou de outra as pessoas têm trabalhado e positivamente contribuído para a cultura.

Sobre Politica: Qual é o teu ponto de vista sobre o 1º ano de mandato do novo presidente da república de Angola
Eu tenho dito que todos nós temos um dever social, mas este dever não tem que necessariamente ser politicamente correcto, com as minhas musicas e acções eu cumpro o meu dever social e deixo os políticos cumprirem as suas obrigações enquanto políticos, 1 ano de mandato? Da forma que as coisas estavam só com deuses no poder poderíamos ver grandes mudanças em um ano, eu sou do tipo positivista e acredito no bom senso das pessoas deixando o beneficio da duvida até que este me prove o contrario.

Sobre o Site: UL aka Underground Lusófono, quais são os elogios e as críticas que tens para nós?
Sobre o mundo do Underground Lusófono que vai desde o site, as paginas nas redes sócias, o grupo no watsap, não tenho criticas a fazer, alias tenho muito a elogiar, vocês têm unido mais povos que certos acordos bilaterais é de louvar o vosso trabalho de divulgação e fortificação do bom rap feito em português.

Para terminar a entrevista, que mensagem deixas para os amantes do bom rap e para os teus seguidores?
Para os amantes de bom rap continuem a apoiar ouvindo e divulgando as obras daqueles que realmente ainda fazem rap com alma e coração vocês são a força motriz para o movimento. Para os meus seguidores obrigado pelo carinho e amor que me têm dado, vocês têm me ajudado a crescer cada vez mais e fazer de mim um ser melhor, continuem ligados que eu continuarei ligado a vocês para não decepcionar! One Love

Ouça aqui a mixtape “255 Quadro.82”

Biografia do Luso

Luis carlos mutaburi eduardo artísticamente conhecido por “luso” é um rapper angolano nascido em luanda aos 9 de junho de 1988. Residiu em portugal entre 1998 a 2010, na conhecida margem sul de lisboa . Começou a fazer rap nas ruas do miratejo, bairro considerado por muitos como o berço do hip hop tuga, até que em meados de 2004 a 2005 com os amigos máximus e nucho, forma o grupo 3pla aliança. Miratejo é um bairro onde o rap é vivido na primeira pessoa, e com influências de grupos como black company, thc, 3 ilegais entre muitos outros. 3pla aliança é um grupo que retratava as dificuldades enfrentadas pela comunidade negra em portugal. Vencedor de concursos de música moderna como grupo e depois individualmente, luso tem um ep lançado e designado primeiro passo. Hoje residindo em luanda e pelas circunstâncias da vida ter se afastado por algum tempo da música, luso regressa ao microfone e juntando-se à kid mc pela produtora cave play, com o objetivo de escrever o seu nome na história do hip hip angolano.

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