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Análise de música: “Estão de Volta” (Professor Analfabeto, Shackal e Sistah África)

Por Carlos Guerra Júnior (Doutor em comunicação com tese sobre rap)

Três rappers moçambicanxs acabam de lançar um manifesto sonoro em favor da união da África. A música “Estão de volta” reúne a intelectualidade dxs rappers Professor Analfabeto, Shackal e Sistah Áfrikah em prol de refletir sobre os malefícios do colonialismo, apresentar uma continuidade de um colonialismo atualmente e ainda pensar como seria realizado um processo de descolonização total, determinando que apenas a África unida seria capaz de obter esse objetivo.

Professor Analfabeto foi o idealizador da música e divulgou a mensagem prévia ao lançamento desse som com uma mensagem do pensador pan-africanista ganês Kwame Nkrumah: “Um estado nas garras do Neocolonialismo não possui seu próprio destino. Esse é o factor que faz do Neocolonialismo uma séria ameaça à paz mundial”. A ideia é mostrar que apenas um processo de liberdade sem deixar qualquer marca do colonialismo possibilita a emancipação do continente.

Um dos mais experientes rappers de Moçambique, Shackal é o responsável por abrir o som clamando por uma África unida e começa enaltecendo o fato de o continente ser o berço da humanidade: “Africa unida, jamais será vencida, berço da Humanidade, a história não foi esquecida, terra prometida, renascida das cinzas”.

Por outro lado, Shackal mostra uma contradição, pelo fato de o continente berço da humanidade ser atualmente o mais explorado, tanto pela política econômica do exterior, como pelos atuais dirigentes políticos corruptos. Além disso, questiona o fato de a medicina tradicional, um dos principais contributos do continente, ser desvalorizada e questionada a sua efetividade, sendo induzida até mesmo a ser considerada culpada por causar doenças. Outras críticas de Shackal é ao fato de a história do continente ter sido modificada e o continente ter sido completamente vendido pelos interesses do capital estrangeiro.

Shackal ainda lamenta o fato de a identidade do povo africano ter sido roubada. Com isso, as gerações mais novas desconhecem a sua própria história. A contribuição seguinte na música é de Sistah Áfrikah, que impõe a importância da valorização identitária ao cantar em língua Xichangana (changana em português), o idioma materno do sul de Moçambique.

A utilização de línguas bantus é por si uma valorização identitária e uma resposta ao apagamento cultural provocado tanto pela política exterior, como por políticas assimilacionistas que impunha a cultura ocidental para os povos africanos, desde o colonialismo e continuou no período pós-independência, com a instituição do Homem Novo, em que xs moçambicanxs deveriam evitar características culturais muitos específicas, por serem consideradas “tribalismo”. Essas políticas provocaram o apagamento de valores identitários e ainda um sentimento de vergonha sobre os hábitos e costumes locais, sendo uma forma de inferiorizar essa cultura, para impor a do Ocidente, em uma política econômica genocida.

A reflexão de Sistah Africah vai além da questão linguística. Ao traduzir a mensagem da artista, percebe-se que é uma denuncia sobre como a globalização provoca roubos e sequelas para o continente africano. Por isso, a solução é uma marcha em defesa do continente africano e dos seus valores, como resposta a essa imposição cultural e econômica.

O último a apresentar as contribuições rimáticas e intelectuais no manifesto sonoro é o Professor Analfabeto, que fala sobre o fato de, após a abolição da escravatura, terem destruído a cultura africana, para impor a cultura ocidental. Assim, faz referência à ditaduras impostas por esse colonialismo cultural e até mesmo mostra o genocídio do povo no processo de exploração das matérias-primas africanas: “Não é possível minerar rubis sem que metam a mão, não é possível explorar petróleo sem que morram um irmão/ se não aceitas verbalmente eles provocam rebelião”.

Para o rapper, trata-se de um processo em que as economias hegemônicas só aplicam a “imposição” dessa política genocida, porque sabem que as consequências “nunca sofrerão”. Ele ainda denuncia que os bens materiais de maior valia do continente são transformados em armas que destroem a própria África: “O ouro e diamante que roubaram da nossa terra/ Fabricam armas que perpetuam em África a guerra”. Há ainda uma crítica a política econômica dos bancos internacionais que roubaram os bens do continente africano e agora concedem empréstimos em que os países africanos deverão pagar e, assim, entram em falência: “Roubaram o nosso dinheiro é agora dão-nos emprestado/ Uma colonização financeira que nos mata aos bocados”.

Por fim, Professor Analfabeto apresenta como única solução a criação de um estado único na África, apresentando ao mesmo tempo uma crítica por não haver ações organizativas visando esse processo de unidade. Professor Analfabeto ainda mostra a influência de pensadores pan-africanistas, ao valorizar a importância de resgates de valores culturais, sociais e econômicas, apresentando ainda uma visão futurista de como seria uma descolonização total do continente: “Mas também somos culpados/ Não somos organizados/ Está na hora de África se tornar um Estado/ Imprimirmos a nossa moeda, definirmos a nossa política/ Resgatarmos a nossa cultura e a crença que nos foi proibida”.

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