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Rap na Universidade: Congresso internacional e revista científica abrem chamadas voltadas ao rap

Rap na Universidade: Congresso internacional e revista científica abrem chamadas voltadas ao rap

Duas iniciativas voltadas exclusivamente para a ligação entre o rap e a pesquisa científica foram lançadas no início desta semana. A revista científica Convergência Crítica, da Universidade Federal Fluminense, acaba de lançar uma chamada para uma edição voltada exclusivamente para a música rap, sendo a primeira revista científica brasileira a realizar uma edição voltada para o “ritmo e poesia”.  Além disso, o congresso internacional “Activisms in Africa” abriu uma chamada exclusiva para as pesquisas sobre rap e ativismo polítco em Angola e Moçambique. Ambas as chamadas estão abertas até o dia 30 de setembro de 2020.

A revista irá priorizar artigos científicos sobre a música rap e tem como título “História e Cultura do Rap”, mas também irá abranger entrevistas e resenhas (de álbuns ou livros sobre rap). A revista funciona com edição geral do professor doutor Leonardo Soares dos Santos e mais um editor convidado por edição. Neste número, o convidado é Carlos Guerra Júnior, doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de Coimbra, com pesquisa sobre rap no Brasil, Portugal, Angola e Moçambique.

Esse número terá, pelo menos, seis artigos sobre o rap em suas diversas perspectivas sociais e políticas. O link para acessar a revista e submeter a chamada é o seguinte: https://periodicos.uff.br/convergenciacritica.

Confira o texto da chamada:

CHAMADA DO PRÓXIMO NÚMERO: DOSSIÊ “HISTÓRIA E CULTURA DO RAP”

O rap é um ritmo, idioma musical ou forma de comunicação contra-hegemônica que se popularizou como voz de protesto de grupos sociais periféricos. Essa arte surgiu nos Estados Unidos como integrante do movimento hip-hop, mas foi reconfigurada em cada local onde se expandiu. O rap mantém algumas características padrões, mas forma produtos híbridos, por meio do diálogo com ritmos, línguas e sobretudo as questões sociopolíticas de cada região. Por meio dessa linguagem artística, os/as artistas conseguem comunicar-se de forma direta com as periferias sobre temas como raça, classe, gênero, regionalismo, história ou economia. Nesta chamada pública, convidamos acadêmicos/as das mais diversas áreas e contextos sociopolíticos a produzir artigos, resenhas ou entrevistas que relacionem o rap com as reconfigurações sociopolíticas em locais diversos. Encorajamos sobretudo a publicações fora de grandes centros urbanos, buscando assim dar visibilidade a trabalhos multiplamente periféricos, para contribuir no modo de se RAPensar arte, política, regionalismo, identidade e comunicação.

 

Congresso Activisms in Africa

A terceira edição do Congresso Activisms in Africa contará com 37 paineis, para debater as diversas formas de ativismo político no continente africano. O congresso internacional, que já foi realizado em Lisboa (Portugal) e Bissau (Guiné-Bissau) estava previsto para acontecer em março e foi adiado para setembro de 2021, devido à crise do Covid-19. O evento vai acontecer em Recife (Brasil). O link do congresso é: https://activismsinafrica21.wordpress.com/

Entre os paineis, aquele voltado para a música rap é “Rap e ativismo político em Angola e Moçambique”. A coordenação será conjunta entre o pesquisador do Barras Maning Arretadas, Carlos Guerra Júnior e os pesquisadores Janne Rantala e Tirso Sitoe, que são vinculados a Bloco 4 Foundation, instituição de pesquisa voltada prioritariamente para música rap.

A Bloco 4 Foundation lançou no ano passado pela Universidade do Porto 14 autores publicando 11 capítulos sobre o rap no Brasil, Portugal e Moçambique, contando com prefácio do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. A parceria entre Barras Maning Arretadas, plataforma voltada para a produção e pesquisa em torno do rap e a Bloco 4 Foundation, ainda gerou o Congresso Decolonial de Rap, que contou com 28 pessoas, entre pesquisadores e rappers, debatendo sobre feminismo e rap, ligação entre rap e academia, lusofonia e rap, adaptações as dinâmicas do rap no período do Covid-19, censura e rap. O Congresso também teve parceria da Universidade Hip Hop de Angola e foi realizado dentro de um Festival Decolonial mais amplo, envolvendo rappers de 27 países. No Congresso, houve participantes de Angola, Brasil, Cabo Verde, Portugal e Moçambique, reunindo pesquisadores da USP, Universidade de Coimbra, Universidade Federal de Santa Catarina, entre outras instituições de pesquisa.

Confira o texto da chamada:

Rap e ativismo política em Angola e Moçambique

Uma leitura pós-colonial das letras de rap, na sua vertente de intervenção social, permite observar a utilização desse gênero musical como uma forma de questionar a globalização neoliberal e apresentar alternativas de descolonização, bem como questionar governos que cometem abusos de poder e são recorrentemente envolvidos em casos de corrupção. Apesar de haver algumas características padrões, a identidade do rap é construída em cada espaço específico, pois há um diálogo também com os ritmos e saberes de cada localidade. Assim, o rap torna-se uma forma de reivindicar direitos sociais, por conta do ativismo social e das letras com conteúdos políticos e sociais. Desse modo, este painel pretende discutir como o rap serve para denunciar as pautas de ativistas cívicos e é impulsionador de manifestações em Angola e em Moçambique. Em Angola, quatro dos 17 ativistas que estiveram presxs no caso conhecido como 15+2 eram rappers. Em Moçambique, o rapper Azagaia serve como impulsionador de manifestações cívicas, produzindo músicas poucos dias depois de protestos ou episódios polêmicos, como são os casos das músicas Povo no Poder, Música de Intervenção Rápida e Sétimo Dia. Manifestar-se nesses países é também uma situação que é respondida em casos de repressão. Em Angola, a forma mais grave de repressão foi o assassinato de Cherokee, fã de MCK, morto em 2003. A intenção dos agentes era fazer com que o episódio servisse de exemplo para outras pessoas não repassassem informações como aquela. Entretanto, o artista recebeu apoios internacionais e foi convidado para eventos no Brasil e na Europa. Assim, rapidamente saiu da condição de músico amador, em que várias gravações possuem falhas técnicas, para realizar ações com artistas famosos do Brasil. Em Moçambique, a censura a duas músicas aconteceu com a decisão da Rádio Cidade, de ordem estatal, em não veicular As mentiras da verdade e O país da marrabenta. Esses casos de censura ampliaram a divulgação das músicas. Isso porque a informação de que a mídia pública estaria censurando músicas era uma informação que interessava aos concorrentes, que buscaram descredibilizar a Rádio Cidade. Apesar de ser uma importante forma de ativismo, não há de se negar o silenciamento que sofrem as mulheres no movimento. Em Moçambique, projetos como  Female MCs, Imperial Ladies e Sweet Girls tiveram curta duração, devido as diversas opressões de gênero sofridas por essas mulheres que buscavam reunir o maior número de rappers mulheres, para atuarem no hip-hop. O mesmo aconteceu com o projeto Heroínas, em Cabinda e o RAPvolução em Angola. Projetos como o Revolução Feminina em Moçambique emerge na busca de mostrar um ativismo cívico das mulheres no movimento hip-hop, em projetos autogestionados, buscando denunciar desigualdades de gênero, dentro e fora do hip-hop, em parceria com instituições focadas na luta pela igualdade de gênero, como exemplo do Fórum Mulher, em Moçambique. Desse modo, encorajamos as pessoas a apresentarem comunicações que abordem temas sobre o ativismo cívico no rap, como forma de denunciar questões como capitalismo, desigualdades sociais, censura, desigualdade de gênero, racismo, identidade cultural e diferenças regionais.    

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Sobre: Carlos Mossoró

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