Home / Entrevistas / Skit Van Darken: “Angola é um projecto colonial inacabado”

Skit Van Darken: “Angola é um projecto colonial inacabado”

Entre rimas e desafios, o rapper Skit Van Darken se destaca e promete ser um dos grandes nomes do panorama Rap Horrorcore/Underground Angolano.

O vosso/nosso portal Underground Lusófono, esteve a conversa com o rapper angolano, que lançou no dia 11 deste mês (Novembro) o seu novo single de trabalho, intitulado “Angola Não Me Diz Nada“.  Skit Van Darken falou-nos desta música e da essência da sonoridade que lhe conferiu.

Primeiramente ouça o single e de seguida leia a entrevista na íntegra.

 

Antes de falar do teu novo single que estreou no dia 11 de Novembro, faz sentido apresentar-se. Para quem ainda não conhece o teu trabalho, como é que te descreves enquanto artista?
Sou Skit Van Darken, jovem angolano, de 25 anos de idade, rapper, beatmaker, designer gráfico e ainda fundador e CEO da Skit Company Records, um dos selos independentes mais activos do país.

De onde veio essa veia artística?
Não vim duma família de artistas, portanto a minha veia artística nasceu do consumo cultural que fui fazendo. Enquanto adolescente tive contacto muito com o Heavy Metal e Hip Hop – Rap que acabaram por definir o músico que sou hoje.

Como surgiu o conceito Angola Não Me Diz Nada?
Angola Não Me diz Nada é mais do que um conceito. É um facto. Este país não me diz nada e não diz nada à muita gente que ainda não despertou para isso. Ninguém se importa com ninguém e com nada. Não existe nenhum sentido de unidade, colectividade ou comunidade em prol da ideia de um País. Crianças comem no lixo os governantes passam com seus carros luxuosos e isso não lhes diz nada, os mendigos a frente dos ministérios, os jovens desempregados na cidade que lavam seus carros e carregam suas coisas para suas casas não lhes dizem nada, todo mundo vê e assiste o ponto que chegamos em que é normal crianças trabalharem e o governo se quer fazer um esforço para minimizar nada. O povo por sua vez, não lhe diz nada a intelectualidade, a cidadania, não lhes diz nada a má governação caso isso signifique ir às ruas manifestar. Às nossas mães diz mais o cristianismo, o dízimo que deve dar ao pastor do que sentar com os filhos e discutir o país e o futuro, diz lhes mais a vida eterna num paraíso cheio de maçãs do que propriamente uma vida digna distante do sol e da poeira que têm que enfrentar na zunga. Nem o sofrimento lhes diz alguma coisa!. Portanto, neste pandemónio em que ninguém se importa com nada surge esta afirmação que todos negam mas é a realidade. Angola realmente não nos diz nada, se dissesse, nos importariamos mais com o lixo a nossa volta, o crime, abusos de autoridade, esturpro, violência policial, etc… Esta situação de completo caos e descaso está criando uma geração apática, doentia que vai se pautar pelo individualismo exacerbado que eu projecto na letra desta música. O ódio profundo e completa negação à Cidadania, por parte daqueles que tentaram se importar, mudar ou fazer algo por este sítio mas foram vencidos pela arrogância das autoridades, a ignorância gritantes do próprio povo e ganância institucionalizada. Eu defendo que eu não posso ser gentil com quem não o é comigo. Não dou a outra face. De igual modo acredito que não mais devo expressar sentimentos positivos em relação a este projecto de País que não me dá nada de especial em troca. A minha luta já não é influenciar a mudança do regime. Angola atingiu o ponto de não retorno. A democracia aqui só vai ser útil para legitimar a tirania. Agora luto para fazer entender aos jovens que entre eles e a vida dos sonhos deles, o carro luxuoso, a casa de luxo que eles precisam e têm todo direito e dever de ambicionar exige um grande obstáculo que se chama Governo. Este apelo não é só à juventude angolana mas do mundo todo. Governos estão condenados ao fracasso, o individualismo é a próxima forma de Estado. Não devemos acreditar em novos messias, partidos com soluções milagrosas ou mudança mirabolantes. Não devemos mudar o sistema, mas sim PASSAR POR CIMA do sistema, da república em si. O individualismo deve triunfar. Atenção que o individualismo é diferente de egocentrismo ou egoísmo. Individualismo é um conceito político, moral e social que exprime a afirmação e a liberdade do indivíduo frente a um grupo, à sociedade ou ao Estado.

O individualismo, em princípio, opõe-se a toda forma de autoridade ou controle coercitivo sobre os indivíduos e coloca-se em total oposição ao coletivismo, no que concerne à propriedade. Todo angolano deve buscar o máximo de conhecimento possível sobre como viver de forma autónoma sem mendigar. Viver com dignidade! Comer bem, vestir bem e cagar bem!. Se formar e arrumar emprego não é a chave! É o acorrentar-se ao ciclo infinito de mendicidade instituido pelo Estado. Não existem heróis, não houve nenhuma libertação. Os símbolos da república bem como o hino nacional são como mantras de encantamento que mantêm nos presos e reféns de uma suposta República que devemos amar ou salvaguardar tornando-nos verdadeiros escravos e servos de uma causa ilusória. Ao Estado, à cultura e ao Governo não devemos nada! E olha que os nossos governantes aplicam a mesma fórmula se escondendo atrás da capa de Governo (o que é extremamente errado no contexto de REPÚBLICA), o que eles praticam é o individualismo dissimulado, extremo e doentio. Pois foi assim e somente que eles conseguem ter tudo o que têm.

A música guiou a estética de todo o conceito ou vice-versa?
Este conceito eu já carregava e aplicava e aplicava em meu dia a dia mas após escrever a letra senti algo poderoso que só ficou mais claro para mim após anunciar o lançamento e partilhar a ideia com mais pessoas então descobri que é um pensamento que já tem andado latente em muita gente que só não o confessa ou manifesta por moralismo ou mesmo mera hipocrisia. Muita gente não consegue ainda rebentar a bolha e pensar completamente diferente do que a academia e a religião ensina. Angola não me diz nada é um modo de pensar esboçado e dele vem a estética, a musicalidade,….

O porquê de tanta maleficência nas escritas desse som?
Eu faço Horrorcore e portanto a minha abordagem é naturalmente tendente à violência gratuita. Mas, além disso para mim a música é terapia portanto tudo quanto eu disse gostaria de o fazer sim na prática, mas em grande parte o que não posso e nem devo, o faço na música. É uma forma de descarregar o que turbilha em minha mente. Sou uma pessoa cheia de ódio e a escrita me ajuda bastante para não perder o controlo. Não foi diferente nesta música. Coloquei tudo o que me passa pela cabeça e sinto.

Não te revés nenhum pouco nesse país? Nas ideologias de certos ativistas que lutam por uma Angola melhor?
Sendo franco: Angola não existe! Angola é um projecto colonial inacabado. Os povos que habitavam esta terra antes da chegada dos portugueses nunca projectam uma suposta República de Angola, nunca foi vontade deles partilharem um país chamado Angola. Há provas disso: O caso de Cabinda por exemplo que é gritante mostra por exemplo que para aquele povo era preferível serem um protetorado português. Como eles manifestaram e isto está documentado no Tratado de Simulambuco que é anterio a conferência de Berlim, datando de fevereiro de 1885. Há relatos de divisões claras entre os vários reinos que existiam. Muitas destas divisões resultavam até mesmo em conflitos. E em vários casos há povos cá dentro que têm inimizades pré-coloniais que persistem. O colono obviamente acentuou e aproveitou-se desse factor para dividir ainda . Por ocasião da repartição de África entre as potências coloniais surgiram e consolidaram-se vários projectos coloniais, um deles foi o da Província Ultramarina de Angola que hoje conhecemos como República de Angola. Como podes ver Angola sempre foi um projecto colonial. A identidade unitária dos angolanos ou angolanidade é apenas uma consequência da opressão portuguesa. O sofrimento uniu os povos e minimizou as diferenças. Apartir dali o inimigo passou a ser outro e a frente de combate tinha de ser unificada. Mas tal foi tão difícil que acabou por resultar nos conflitos que tivemos. Há uma incompatibilidade irreversível entre o povo angolano. É um projecto iniciado pelo colono e só eles sabem o que queriam com isso. EU NÃO SINTO NADA POR ESTE PAÍS, mas reivindico meus direitos enquanto ser humano independentemente da configuração do sítio em que me encontro seja ela República, monarquia, etc.
Não concordo com as ideologias de todos activistas. Jonas Savimbi, Holden Roberto, Neto, Chipenda, Niro Alves, Lucas Ngonda e tantos outros nomes da suposta luta de libertação também eram a uma determinada altura activistas lutando em prol da autodeterminação dos angolanos pois não? Deu em quê? Nessa merda que vivemos. Bem antes de terem sucesso é visível a ganância desses suposto activistas e o quanto eles capitalizam para honra pessoal suas lutas mesmo que as causas que apontam sejam comuns ou “popular”. Várias vezes trocam farpas nas redes sociais do tipo quem é verdadeiro revú e quem não é. Eu não aprecio essas lutas de galinhas, sou adulto. Por outra, falaste de ideologias, saiba que elas criam “-ismos” e são esses “-ismos” que criaram a guerra prolongada e continua a separar os angolanos. Minha ideologia é comida no prato e liberdade para fazer o quero fazer sem prejudicar outros, e o direito de revidar contra quem me impedir de alcançar o que citei.

Para quem ainda não ouviu este “Angola Não Me Diz Nada”, como é que o apresentarias?
Resumiria desta forma: ESTA MÚSICA VAI OFENDER E DESTRUIR SUA MORAL HIPÓCRITA!

Angola Não Me Diz Nada” vai integrar o teu próximo projecto? O que é que nos podes dizer deste projecto?
Sim, fará parte do meu próximo álbum ATOM AGE VAMPIRE que significa VAMPIRO DA ERA DO ÁTOMO. Este álbum vais abordar assuntos relacionados com o Globalismo, Terrorismo Financeiro, Anarcocapitalismo, Caosofia, Liberalismo, Satanismo, Luciferianismo, Necrofilia, Pedofilia, Cropofagia, Horror, Violência, Homicídio, Genocídios, Ódio racial, Vandalismo, profanação sepulcral, Brutalidade policial, Energia Nuclear, Contra-Inteligência militar e Magia Cerimonial.

Se fosses Presidente de Angola por um dia, qual seria a tua primeira medida?
Adoptaria um conjunto de 3 medidas:
1 – Legalização do consumo, produção e exportação da cannabis como medida de alívio econômico e dinamização do comércio interno uma vez que já existem muitos produtores e consumidores. Esta medida deverá ser acompanhado de um perdão presidencial (indulto) de reclusos por posse de cannabis para desafogar o sistema prisional)
2- Estabelecer um imposto comunitário às igrejas que deverá ser revertido para as comunidades em que elas operam.
3- Decretar medida “Marcial” para forçar a produção em massa de produtos da cesta básica, canalizando todos os recursos possíveis ao apoio da agricultura de subsistência.

Relativamente a pandemia: como tem sido para ti viver todas estas incertezas?
Tem sido HORRÍVEL. A doença causada pelo vírus Sars-Cov existe, mas a tal coisa de “Pandemia” é que não. Mais uma vez fomos manipulados pelos globalistas tecnocrátas que têm as rédeas do jogo. Financeiramente foi um bom ano, uma vez que eu trabalho com informática e houve maior demanda por produtos e serviços informáticos. Artisiticamente eu sempre tive a internet como o meu centro de comando e a pandemia ajudou de certa forma com aumento do uso da internet. A ideia da pandemia e o conceito de Lockdown são uma ameaça real à humanidade como a conhecemos. Eu faço parte da resistência, da rebelião, da classe do homem primitivo que recusa-se a evoluir nos termos da tecnocracia corporativista. Eu sou daqueles que usam o microfone para revidar contra a estrutura emergente de manipulação e distorção completa do animal Homem.

Uma oportunidade de recomeço e estímulo à criatividade ou um desastre que veio expor as insuficiências que já existiam?
A pandemia e os lockdowns expandiram a consciência da população global aos tipos de conteúdos que artistas como eu apresentam. E só isso já é um grande estímulo à criativdade.

O que podemos esperar do Skit Van Darken nos próximos sons?
Mais verdades ocultas e censuradas pela sociedade como uma instituição, mais frontalidade, menos hipocrisia literária, menos moralismo… Mais distopia, mais informação classificada, mais consciência crítica e mais proximidade aos ouvintes e presença.

Skit Van Darken – Angola Não Me Diz Nada

Compre o single

Comentários

Sobre: Underground Lusófono

HipHop/Rap Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal,Timor-Leste, São Tome e Principe.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: