Depois de dois anos de ausência, o Underground Lusófono está de regresso. E não poderíamos assinalar esta nova etapa sem dar espaço a uma das vozes mais lúcidas e comprometidas do Rap moçambicano: Nikel.
Meu irmão, a tua escrita tem sido um reflexo crítico de um tempo complexo, em que a arte se recusa a ser mero ornamento e assume o papel de documento vivo das inquietações, das lutas e das transformações sociais. Entre a consciência política, a defesa dos direitos humanos, as vivências pessoais e a responsabilidade colectiva, a tua música revela um artista que entende o Hip-Hop não apenas como expressão individual, mas também como instrumento de intervenção social.
Nesta entrevista, percorremos diferentes dimensões da sua trajectória, da liberdade criativa à realidade sociopolítica de Moçambique, passando pelas metamorfoses emocionais do artista, pelo valor dos princípios e pelo papel do Hip-Hop na construção de uma consciência lusófona descolonizada.
Num tempo em que a força é frequentemente confundida com a ausência de medo, uma das tuas afirmações ganha particular significado: «Acho que os homens que sentem medo são os homens mais fortes.»
É a partir desta reflexão, e de tantas outras que atravessam a tua obra, que damos início a esta conversa.
Nikel, bem-vindo ao Underground Lusófono.
1 – Quem é o Nikel e quando é que começa a tua trajectoria no Rap Moz?
Obrigado, Nikel é Rapper moçambicano, nascido na periferia da Cidade de Maputo, concretamente, no Bairro de Chamanculo.
Começa a sua trajectória, com alguma consistência, no ano de 2010 quando vence a Categoria de Rapper Revelação, nos Awards do Clássico HipHop Time, o mais antigo e primeiro programa de HipHop em Moçambique.
2 – Quando olhas para a caminhada que te trouxe a este momento, sentes que a tua escrita hoje nasce mais da urgência de desabafar ou da responsabilidade de documentar o que muitos preferem calar em Moçambique?
De ambas as perispectivas, posso acrescentar dizendo que, a minha escrita nasce, também, da necessidade de promover a Justiça Global. Tenho uma paixão forte pela coerência no dizer da palavra, e sirvo-me desta peculiaridade para contribuir no resgate de valores sociais, promover a cidadania, os direitos humanos, a justiça e intervir na promoção da saúde pública, através do HipHop. Portanto, a minha escrita nasce sob um ponto de vista amplo onde o artista é meramente um observador e contribuinte de soluções.
3 – Fazer rap comprometido com a realidade social em Moçambique nunca foi terreno suave; cobra um preço emocional, social e às vezes até de portas que se fecham nos circuitos oficiais. Quando começas a montar uma faixa no teu canto, até que ponto a tensão política que se respira no país invade a cabine contigo, e até que ponto o microfone é o teu único lugar de verdadeira soberania?
Geralmente, não penso nos entretantos, simplesmente faço, porque, a verdadeira inspiração nasce da liberdade que o artista tem de criar.
Moçambique é um país onde o terreno sócio- politico não é saudável, porém, não olho pra este aspecto como um impedimento de me expressar. O artista deve falar quando as coisas estão erradas, mas também deve ter a humildade de elogiar quando estão certas. Fazer música RAP, mais do que um acto individual, é uma responsabilidade colectiva, porque ser Rapper é ser um porta voz social.
4 – Em ‘EASY EASY’, há um paradoxo maravilhoso: vocês rimam sobre realidades duras, mas o refrão com a Arminda Jamisse e o entrosamento com o Frank Jones e o Flow Man transmitem uma paz quase desafiadora. Essa leveza foi uma escolha deliberada para não entregar a vossa alegria ao peso das circunstâncias, ou foi o beat que simplesmente vos pediu esse balanço mais solto?
[risos] Foi tudo programado e o resultado foi exactamente como todos esperavamos que fosse.
Criamos os personagens e atribuimos os papeis conforme tenta se ilustrar no video oficial.
Acredito que, as lutas e os desafios para ganhar a vida ocorrem em diferentes circunstâncias e espaços geográficos, desde o jovem e/ou o chefe de familia que levanta cedo até a jovem rapariga que encontra na prostituição um terreno fértil para ganhar o pão. Portanto, essa musica é o reflexo da matriz real sobre a sobrevivência em África.
5 – Na faixa ‘7 CHAVES’ com o K9, vocês entregam um hip-hop com uma contenção técnica impressionante, onde parece haver uma decisão muito firme de não expor tudo a qualquer um. Quando vocês falam dessas chaves, qual é o princípio ou segredo de vida que sentes que o rap anda a vender barato demais e que vocês fizeram questão de trancar?
Pois. Apesar de a arte ser plurissignificante a música “7 Chaves” não permite qualquer interpretação. É uma abordagem muito intimista e necessária nos dias que correm.
A música é totalmente inspirada no meu traço identitário como artista e ser humano. Considero-me um artista pouco chegado aos demais e preservado, mas, isto não significa ser anti-social. É simplesmente minha postura e carácter. Outrossim, como ser humano, passei por várias vivências e experiências que senti a necessidade de socializar. Nesta faixa, quis que ficasse bem patente e transparente que: Música, também, é sobre nós.
6 – Entrando em ‘Ordem Depois do Caos’, a produção do Aminoácido traz um peso quase ritualístico. Tu dizes coisas que soam a um diagnóstico sem anestesia das crises cíclicas que Moçambique vive. Tu escreveste este tema a pensar na reconstrução íntima da tua própria cabeça após momentos de esgotamento, ou estavas a olhar diretamente pela janela para o cenário sociopolítico da nação?
Esta faixa faixa foi concebida após as Manifestações Pós-eleitorais em Moçambique, naquela altura muitos artistas e activistas desempenharam um papel importante para o restabelecer a ordem social e colocar o pais na normalidade e, simplesmente, não quis ficar alheio à realidade que se vivia. E, porque, não sou apologista da construção do retrocesso, optei em abordar o tema numa perspectiva futurista sem gueras, ódio entre os povos e promover o pensar e ser diferente, principalmente no exercicio da política nacional.
7 – Já em ‘Chegou o Fim’, sobre o beat cortante do B. Noize, sentimos uma batida de porta definitiva, um tom de ultimato. Muitas vezes os artistas usam esses títulos para falar de relacionamentos amorosos, mas a tua entrega soa mais a um divórcio com o conformismo social e com promessas de governantes. O que é que realmente chegou ao fim para o Nikel naquele instante?
“Chegou o Fim” é um tema de transição de fases e etapas. É a última faixa do meu 1° Álbum “09 de Março”, um projecto que dediquei inteiramente ao nosso Mano Azagaia (Descanse EmPaz).
A música é toda baseada na imaginação de cenários possiveis e impossiveis, reais e ficticios. É uma das músicas que mais conversa comigo, por isso, deixo a interpretação ao critério de quem a escuta e sente. Sempre chega um fim p’ra tudo e todos.
8 – Se colocarmos ‘Chegou o Fim’ ao lado de ‘Ordem Depois do Caos’, parece que estamos a assistir a dois atos de uma mesma peça dramática: primeiro a demolição necessária, depois o trabalho doloroso de levantar as paredes. Como é que foi para ti, emocionalmente, navegar entre a raiva de fechar um ciclo e a paciência quase cirúrgica necessária para reconstruir o teu discurso?
Sou Rapper e Artista. Estas metamorfoses e processos são típicos de Agentes que criam. O artista defende causas, as vezes simula situações, o artista cai e levanta, naturalmente. Por isso, fazer música não se difere de fazer um drama, onde os personagens [artistas] estão na peça para desempenhar um certo papel. Dai que, os verdadeiros artistas devem ser fortes emocionalmente.
9 – Nikel, no rap alternativo muitas vezes exige-se do homem e do rimador uma carapaça de ferro, temos de ser sempre inabaláveis, o escudo do bairro. Mas quando ouvimos o subtexto destas quatro músicas, há momentos em que transparece o cansaço legítimo de carregar tantas batalhas. Em que momento da criação sentiste medo de estar a soar vulnerável demais, e porque decidiste não recuar?
Acho que os homens que sentem medo são os homens mais fortes.
Eu sou defensor da minha familia e das minhas causas, por isso, sinto medo de qualquer ameaça que possa desequilibrar e desistabilizar as coisas que mais amo e defendo. Cada um tem os seus medos, isto é universal.
Ser excessivamente protector e acolhedor deixa qualquer ser humano vulnerável e com medo de falhar na tomada de decisões sobre as pessoas que dependem de si. É exactamente esse medo que me fez avançar porque preciso estar seguro de que todos estão em bom porto.
10 – Como é que vês o papel do hip-hop moçambicano na construção de uma consciência lusófona descolonizada, longe da diplomacia formal e perto das dores reais da juventude?
O HipHop tem um papel importante no processo da revolução cultural, mas isto só é possivel se convergirmos o passado e o presente do Hip Hop Moçambicano sob o ponto de vista de narrativas temáticas e do seu percurso nas regiôes Norte e Centro de Moçambique e Peri-Urbanas de Maputo. Se fizermos isto com minúcia veremos que houve muitas transformações e novos descobrimentos que determinaram e traçaram novas dinâmicas sobre como HipHop é feito pelos diferentes intervenientes.
Assim, olho para tudo isto como um grande ganho porque contribui na criação de uma identidade própria do nosso produto e conteúdo locais, consequentemente, isto acrescenta valor e nos atribui qualidade para contribuirmos na construção dessa consciência lusófona com novos paradigmas que reflectem os desafios e os problemas que dizem respeito a juventude.
11 – Algum projecto/EP/Álbum a sair para breve?
Sim. Irei lancar em 2027, o Álbum “Jogador Caro”.
12 – Para fecharmos esta entrevista que fica gravada na história do Underground Lusófono: se daqui a vinte anos um miúdo em Moçambique, Angola, Brasil, Portugal, etc, encontrar este conjunto de faixas num arquivo antigo, o que é que tu queres que ele compreenda sobre o homem e o cidadão Nikel que estava atrás deste microfone?
Quero que compreenda que: A Arte é eterna e NIKEL foi apenas o Porta Voz da Eternidade.
Muito obrigado a todos, em particular, a toda equipa do Underground Lusófono.
Nota Final
Esta foi a nossa conversa com Nikel, uma entrevista que nos convida a reflectir sobre o papel do Hip-Hop, a responsabilidade social do artista e a força necessária para defender aquilo em que acreditamos.
A todos os que nos acompanham de Luanda, Maputo, Lisboa, Praia, Bissau, São Tomé e Príncipe e de tantos outros cantos da Lusofonia, fica esta reflexão: a música consciente não resolve os problemas do mundo por decreto, mas ajuda a manter viva a nossa dignidade, a nossa consciência e a nossa capacidade de questionar.
Neste regresso do Underground Lusófono, reafirmamos o nosso compromisso com as vozes, as ideias e as narrativas que dão profundidade ao Hip-Hop alternativo da Lusofonia.
Força na caminhada, cuidem dos vossos e preservem aquilo que verdadeiramente importa. Que, depois do caos, saibamos sempre encontrar caminhos para a reconstrução.
Até à próxima entrevista.
Underground Lusófono
