Nesta nova etapa do Underground Lusófono, trazemos Luso, rapper angolano cuja escrita, marcada pela densidade lírica, pela consciência social e pelo rigor na palavra, transforma vivências e inquietações em narrativas que merecem ser escutadas para além dos auscultadores.
Em Terra do Nunca, o seu novo álbum, o artista traça um retrato de Angola a partir das contradições que atravessam o quotidiano, num cenário onde os sonhos parecem distantes e a esperança insiste em sobreviver. Entre questões ligadas à sobrevivência, à educação, à família, à memória e à responsabilidade colectiva, a obra ultrapassa a dimensão musical para questionar o país que somos e aquele que ainda podemos construir.
«Se a minha música não te toca a alma, o que o rádio faz com ela é mesmo só tocar para que a possas ouvir.» É nesta perspectiva que mergulhamos no universo de Terra do Nunca, numa conversa em que Luso reflecte sobre os princípios que orientam a sua arte, as histórias por detrás das canções e o papel da música enquanto instrumento de consciência e transformação social. Ao longo desta entrevista ao Underground Lusófono, o rapper partilha as inquietações, as ideias e as motivações que dão forma a uma obra que procura ir além do entretenimento e provocar reflexão sobre a realidade angolana.
1 – Luso, sê bem-vindo ao Underground Lusófono nesta nova etapa do nosso portal. O teu álbum chama-se ‘Terra do Nunca’, mas logo na 1ª faixa “Terra do Nunca) com o Racker Strong sentimos que essa terra não é o refúgio mágico do Peter Pan onde ninguém envelhece, mas sim uma Luanda onde a urgência da vida não deixa ninguém ser criança por muito tempo. Foi essa contradição que te empurrou a baptizar o projeto com este nome?
Mais uma vez grato pelo convite, é sempre uma honra falar com um dos canais mais impulsionadores do Rap feito sem holofotes.
Sim, Terra Do Nunca na verdade é um paralelismo entre a terra de fantasia de Peter Pan e a terra de Luso aonde a fantasia parece tardar a acontecer, o que as vezes nos leva a certeza de que algumas das coisas com que sonhamos “nunca” irão chegar.
Daí o nome do álbum ser Terra do Nunca, um retrato cantado de Angola numa perspectiva mais fantasiada, na verdade a esperança por trás de cada música no álbum é de que um dia Angola se torne a “Terra do Já” para todos nós.
2 – Na faixa ‘Engraxa a dor’, produzida pelo Silindro Darkroom, usas a metáfora do engraxador de rua com uma propriedade impressionante. Entre a poeira da rua e a graxa que dá brilho ao sapato alheio, onde é que tu situas a tua própria escrita? O rap para ti tem sido mais a dor que expões ou a graxa que ajuda a disfarçar os golpes da vida?
Engraxa a dor é, se não, o conto mais real que trago neste álbum, apenas se equiparando ao “Camião de Lixo”
Conheci o “menino” Joaquim em 2018, ele era engraxador de sapatos e cruzamos-nos no seu “local” de trabalho, enquanto ele engraxava os meus sapatos conversamos sobre a vida e acabamos por firmar um acordo, eu o ajudaria com as propinas da escola e em contrapartida ele só teria que ter notas acima de 15/18 valores em cada disciplina, é assim até hoje, momento em que finalmente engrossou para a faculdade.
Rap para mim é isso, expor a realidade como exemplo, usar a palavra como a pomada que nos vai engraxando a dor até que a vida se torne o mais brilhante possível.
3 – Logo a seguir entregas ‘Camião de Lixo’, que é talvez uma das faixas mais desconfortáveis e necessárias do Álbum. Aquela cadência arrastada passa a sensação de que estamos a ver os sonhos do bairro a serem triturados pela engrenagem da cidade. Essa imagem nasceu de uma madrugada real em que viste o caminhão passar ou de um cansaço interior acumulado com as promessas não cumpridas da sociedade?
Na verdade a imagem nasceu da história viral de dois miúdos que morreram num camião de lixo procurando coisas para comer ou vender para posteriormente comprar alimentos.
O primeiro verso passa despercebido aos ouvidos de quem apenas se foca na mensagem falada, eu gosto do exercício de ter coisas além do óbvio e nesta música há uma comparação implícita do “Inferno de Dante” do livro “A divina comedia” com o inferno cá na terra vivido pelos meninos que faleceram no camião de lixo, deixando a ideia de que a maior punição para eles foi terem nascido em Angola.
4 – Em ‘Mamã orou’, com o Bi Gângster e produção do Mayika, expõe a dor de uma mãe que orou para o filho ser polícia e a filha doutora, mas viu o filho virar gatuno e a filha seguir caminhos rebeldes. Qual foi a inspiração para abordar essa contradição tão dolorosa entre o desejo e as orações de uma mãe e o rumo real que os filhos tomam?
Quem vive ou conviveu em bairros sociais, guetos ou musseques, sabe que nestas realidades existem dois lados paralelos que a dada altura se cruzam, a vítima e o bandido, e os nossos filhos não estão isentos de nenhum deles quando o meio envolvente é maioritariamente ditador do rumo que seguimos.
“Para quem nasce onde o estado defeca, tem metade do caminho andado para estar mais do lado do mundo que peca”
A oração de uma mãe as vezes não é suficiente, é importante que o meio envolvente faça a sua parte, o facto de eu prender o meu filho dentro de casa e ensinar que a vida de “bandido” não é um rumo a seguir não tira de todo da possibilidade de nela entrar, é importante que eu perceba que eu devo educar também as pessoas que rodeiam o meu filho.
Dotar o filho do vizinho faz com que a possibilidade de ser “ele” a induzir o meu filho ao crime, seja menor.
5 – Em ‘Vida de Bizante’, ao lado do 12FUROS sob o beat do Vadsta, o ritmo acelera e entramos na ginga pura do desenrasco luandense. O bizante é muitas vezes julgado por quem vê de fora, mas ali vocês mostram o cálculo matemático e a inteligência rápida de quem precisa pôr pão na mesa. Até que ponto o teu próprio percurso na música/nas outras funções laborais é uma extensão da mente de um bizante?
Metade das pessoas que me ensinaram a fazer Rap tiveram ligações com o mundo do crime, em Lisboa vivi no Miratejo zona na altura considerada perigosa por ter tido extensão vasta ligada ao tráfico de droga, particularmente sou apaixonado por séries que estudam ou trazem a psicanálise e desvendam a mente de psicopatas.
Então posso dizer que o meu rap é muito ligado ao lado mais “rua” do hip hop, e a minha visão de mundo faz com que eu consiga ser o “desenrasca/bizante” sem necessariamente me inclinar para o mundo crime mas usando-o como exemplo de superação e demonstrando que ele por si só não compensa.
6 – Em ‘Do dia para noite’, com o Marley do Beat, é construída sobre um contraste direto entre a inocência dos “primeiros” momentos e o peso dos “últimos”. Como foi o processo de mapear essas fases da vida na composição e encontrar o equilíbrio entre o início da jornada e o seu encerramento?
Eu ainda utilizo os olhos como maior fonte de recebimento para tudo o que eu cérebro processa em música, o primeiro verso é olhado para mim mesmo e tentei ir buscar as minhas principais vivências de infância, adolescência e pré juventude, quando digo “primeira vez que viveste as dores que os velhos viveram no primeiro feto” é inspirado numa frase dita pelo meu pai quando fui pai pela primeira vez “estás a sentir o que eu sinto quando acontece alguma coisa com vocês”, na primeira vez que a minha filha convulsionou por um ataque de epilepsia.
“Primeira vez que sentiste racismo por teres ouvido em primeiro a cor” é o recordar dos tempos de futebol em Portugal quando nos clubes principais era permitida a inscrição de apenas dois estrangeiros por equipa…
O segundo verso mostra que o que escolhemos lá mais para trás pode ser a condicionante para o desfecho cá da frente, a vida é feita de escolhas, não existem almoços grátis e sempre será a escolha de um em detrimento de outro.
O mundo pode mudar do dia para a noite e vice e versa.
7 – ‘Educação Morfológica’ com o Soldja soa quase como um tratado universitário montado num beco escuro. Vocês dissecam a forma, as raízes e as desinências da língua com uma agressividade técnica formidável. Vocês quiseram mostrar que a verdadeira academia da língua portuguesa muitas vezes reside na boca de um MC que estuda a palavra para sobreviver?
Dizem que quem lê um livro nunca se torna o mesmo, quem ouve um verdadeiro MC torna-se ainda melhor porque este é resultante da leitura de vários livros, a literacia sempre teve na base do meu nome “Luso” e educação morfológica é literalmente usar as regras da morfologia portuguesa para educar os ouvidos de quem nos ouve.
Embora tenhamos nascido com o dom da palavra (fazer rap) estudar a palavra (língua portuguesa) para passar a palavra (mensagem) é muito importante.
8 – Em Underground King, assumes um título de grande peso. Muitas vezes, a indústria musical utiliza o termo «underground» de forma depreciativa, associando-o à falta de alcance ou de reconhecimento comercial. Na tua perspectiva, até que ponto a recusa em negociar os teus princípios para conquistar espaço na indústria fortalece a tua identidade e a tua autoridade enquanto artista underground?
Antes de querer ser artista é importante que se olhe para onde queremos levar a nossa arte e como queremos que ela fale por nós quando nós já cá não estivermos, para mim, se a minha música não te toca a alma o que o rádio faz com ela é mesmo só toca-lá para que a possas ouvir, eu gosto que ela seja sentida, e para isso é necessário eu me abalizar de princípios que não se curvam para atingir um maior alcance.
Outrossim, é importante ainda estarmos convictos e sabermos que na terra em que vivemos o intelectualismo não é visto como vaidade então não tem o brilho necessário para que a maioria olhe para ele.
9 – Em Chama na Ventania, encontramos um momento de suspensão poética, quase transcendental. A conjugação das vozes de RONIN, Sidjay e Isis Hembe cria uma espécie de fogueira no meio de uma noite fria. Como equilibraste a doçura e a expressividade da voz de Isis Hembe com a aspereza sonora característica por Darkroom, sem comprometer a identidade estética do Álbum?
(risos) essa música foi concebida no coletivo, criei um grupo do WhatsApp, adicionei todos os integrantes e discutimos ideias, temas e como seria nós os quatro numa música e por mais irônico que pareça foi o Isis Hembe quem deu a ideia da música, o título surgiu de uma passagem do verso do RONIN e acabamos por trazer uma simbiose perfeita e que se encaixou no álbum, somos nós chamas na ventania, resistentes às necessidades de mudança de direção que vem e vão com o vento.
10 – Na faixa ‘VITÓria’, gravada com o Badibanzelo, vemos a palavra ‘VITÓ’ grafada em maiúsculas. Que vitória é essa que vocês celebram aqui? É a vitória dos troféus que se exibem ou a vitória silenciosa de quem conseguiu passar mais um ano sem se corromper nem perder a postura?
VITÓria é uma faixa em que agradecemos pelo facto de os que já partiram continuarem a olhar por nós em cada novo dia, garantindo que os nossos passos sejam iluminados e firmes, a palavra vitoria tem o prefixo Vitó que é o nome do meu irmão que faleceu em 2017 e fez com que eu voltasse para o mundo do rap depois de ter decidido parar em 2008, então é sobre este tipo de vitória que eu e o meu irmão Badibanzelo cantamos e celebramos.
11 – Luso, em ‘Oh Pai’, ao lado do Soldier, entras num terreno que a maioria dos homens no rap evita a todo o custo: o vazio paterno e as feridas deixadas pela ausência ou pela rigidez. Em algum momento sentiste que rimar sobre o pai era a conversa mais urgente que tinhas pendente na vida?
Primeiro senti que agradecer por Deus me ter feito homem era necessário e depois senti que agradecer pelo meu Pai me ter feito homem era igualmente necessário.
Na verdade em “Pai” nós agradecemos e endereçamos o primeiro verso ao pai celestial e o segundo verso ao pai biológico, daí o Soldier na primeira parte do refrão falar quase que em oração e na segunda subir um pouco mais o tom e falar em forma gritante de agradecer ao pai.
As vezes nós homens somos postos no último lugar de referências a serem tidas em momentos de agradecimento por sermos a parte mais “rígida” da família, porém é importante que os pais recebam os louros em vida e que sejam homenageados também.
12 – E fechas o ciclo com ‘Prenda Para Vocês 8’, mantendo uma tradição viva sob o beat elegante do Seven Wonder. Chegar ao volume 8 de uma série pessoal de ofertas líricas é uma declaração monumental de consistência. O que é que o Luso que rimou na primeira ‘Prenda’ diria ao Luso que hoje entrega esta oitava oferenda com tanta maturidade acumulada?
Que estamos na oitava prenda e eu ainda não consegui superar o que ele fez na primeira (risos)
Prenda para vocês tornou-se uma marca para mim e para todos os que me seguem nesses últimos oito anos, é visível para mim a minha evolução estética, beleza textual e musicalidade cada vez mais acentuada, então acho que é algo que pretendo continuar a fazer para o resto dos meus projectos.
13 – Projectos a sair ainda neste ano?
para este ano já não garanto muito, mas para 2027 estamos a prepara um EP que será uma espécie de filme com músicas interligadas entre si, seguindo a vertente Storytelling do Hip Hop. A ideia a posteriori é dar sequência a volumes de lançamentos trazendo histórias “mal contadas” em filme feito em rap.
14 – Para fecharmos esta nossa entrevista que ficará registada na história do Underground Lusófono: se alguém no ano de 2050 encontrar este ‘Terra do Nunca’ soterrado numa gaveta digital e colocar os auscultadores para tentar entender o que significava ser jovem, lúcido e letrista em Angola no ano de 2026, que verdade fundamental sobre ti e sobre o teu povo gostarias que essa pessoa retirasse dos teus versos?
acho que o meu verso na música “chama na ventania falaria muito sobre mim, sobre como eu encarava o mundo e sobre a verticalidade lírica que preferia me manter mesmo diante de uma indústria que pedia um outro Luso, a parte sobre a Líbia no Pós Khadafi seria o cartão postal para que eles pudessem ver que tomo falta de união num povo pode levar a destruição de um país.
Nota Final
Terra do Nunca é mais do que um título: é uma metáfora para uma realidade em que os sonhos de muitos continuam adiados, enquanto a esperança procura resistir às contradições de um país que ainda tem muito por resolver.
Ao longo desta entrevista, Luso revela um olhar atento sobre Angola, dando corpo a histórias que poderiam permanecer invisíveis e transformando experiências individuais em reflexões colectivas. Da realidade dos mais vulneráveis à importância da educação, da memória familiar à necessidade de preservar a integridade artística, o rapper reafirma que a palavra, quando trabalhada com consciência, pode ser instrumento de questionamento, resistência e transformação.
Num tempo em que a visibilidade parece, muitas vezes, valer mais do que a mensagem, a sua perspectiva recorda-nos que a relevância de um artista não se mede apenas pelo alcance da sua música, mas também pela profundidade daquilo que deixa em quem a escuta.
Talvez seja essa a maior contradição de Terra do Nunca: falar de um lugar onde os sonhos parecem nunca chegar, sem abandonar a possibilidade de que um dia se tornem realidade. Afinal, a esperança que atravessa o álbum é também um desejo colectivo que Angola deixe de ser a terra do «nunca» para se tornar, finalmente, a «Terra do Já».
Porque algumas músicas foram feitas para tocar no rádio, mas outras nascem para permanecer na consciência de quem as ouve.
Até à próxima entrevista.
Underground Lusófono